Palavras Esquecidas

by - segunda-feira, abril 03, 2017

O grande relógio da sala me acordara com suas badaladas, era madrugada, uma chuva fina caia la fora, os galhos desnudos pelo outono do grande carvalho batiam a janela como uma grande sinfonia acompanhada pelo balé dos ventos, o velho despertador no criado mudo marcava três e meia, já era tao tarde e o máximo que eu tinha feito era cochilar, decidi por me levantar.

Os quadros ao longo do corredor estão ao chão, alguns embalados, outros quebrados, outros simplesmente ao chão, a escadaria estava repleta de caixas e jornais velhos, estava tudo uma bagunça, paro a porta da sala e observo lembranças de tempos felizes me invadem, da sala lotada, com pessoas rindo, com ele gritando que me amava, mas tudo se fora e restara apenas o vazio com caixas espalhadas e um grande relógio a trabalhar. A cozinha trazia mais lembranças, os almoços em família, as risadas, o pedido de casamento e como nos amávamos apos algumas taças de vinhos, aquela grande mesa vazia tinha muito a contar, tantos segredos. 

No balcão papeis e mais papeis disputavam lugar com as caixas e nossos presentes de casamento, agora embalados, pego alguns dos papeis e ligo as lagrimas me vem, cartas de tempos difíceis, de distancia, cartas do tempo de guerra, com as vistas embaçadas só algumas frases se fazem visível, como "nosso campo foi atacado", "sofremos um bombardeio", "estou com saudades", "logo estarei em cada", "P.s. eu te amo meu anjo", no meio da papelada algo brilhava dentro de uma caixinha, era uma medalha, não uma qualquer era uma de honra, junto uma placa de metal com uma homenagem e condolências, como esquecer daquele 30 de abril, daquela ligação as 08:45 onde a unica coisa que consegui ouvir foi "sinto muito, seu marido morreu durante uma operação", foi o fim pra mim, nada fazia mais sentido, tantas cartas de suplicas pedindo que ele voltasse e ele sempre dizia que logo voltaria. 

Agora que estava em guerra era eu, com meu interior, com a parte de mim que ainda restava a outra tinha ido com ele, tudo agora fora esquecido, considerado um bom soldado, um bom marido, mas apesar das homenagens tudo fora esquecido, para os outros a guerra seguia e ele havia se tornado apenas mais um soldado que deu a vida por seu país, para mim nada seria esquecido e mesmo que não fosse de corpo presente ele sempre estaria comigo, ate o fim dos meus dias, onde eu poderia vê-lo novamente.

8 comentários

  1. Demais! É triste, porém ficou incrível. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente é meio triste, mas gostei de abordar esse tema, porque há tantas mulheres que sofrem com isso, são poucas pessoas que dão importância a isso, perder alguém nessas condições não é nada fácil.

      Excluir
  2. Não conhecia esse grupo, pedi pra entrar lá :b quero entrar na vibe dessas postagens coletivas :)

    Eu sempre penso nesse lance de distancia, como é cruel... mas acho que quando falamos de guerra, da incerteza, da espera e talvez do "nunca mais" é muito triste. Lindo seu texto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Luane, realmente ao se pensar em guerra, nos vem tristeza, a incerteza é muito grande, nunca se sabe quando você receberá uma carta ou uma ligação comunicando o pior, fico feliz que tenha gostado :)

      Excluir
  3. Que lindo Lu,adorei o texto,confesso que algumas lágrimas saltitaram rs
    Beijos ^.^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que você gostou Jenny confesso que também fiquei emocionada quando terminei de faze-lo um dos meu xodós agora *-*

      Excluir
  4. NOSSA, que triste Lu, mas magnifico. Retratou bem a perda não só dessas mulheres, mas de qualquer um que já perdeu alguém. Quando se perde alguém é bem assim.
    Bjo sua linda

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso é verdade, sempre retratamos a felicidade, o amor em nossos textos, mas são poucos os que retratam a tristeza, a perda, talvez tenha ficado muito triste, mas acho que expressou bem um pouco da dura realidade de muitos.

      Bjos Mi *-*

      Excluir

@tiposdalu