[Contos]: The Whistler

27/02/2018
A noite estava fria e vazia, tudo que se podia ouvir eram seus passos em meio as folhas secas e o assovio do vento por entre as arvores. O visor do celular em seu bolso apontava vinte duas horas em ponto, um tanto tarde para sua habitual caminhada. O trajeto da faculdade era um tanto longo, cerca de cinco longas, escuras e silenciosas quadras, ela caminhou em silencio seguindo o assovio do vento. Caminhou. Caminhou. Até que uma brisa gelada encontrou seu rosto e um arrepio percorreu sua espinha, uma lufada de folhas secas a encontrou bagunçando seus cachos avermelhados, ela piscou algumas vezes tentando eliminar a areia que tinha vindo com o vento, olhou em volta e notou que estava em frente a velha “Mansão Sanlin”, uma casa antiga, com uma historia trágica. O medo tomou conta dela de repente, suas pernas bambearam e seu coração parecia que iria sair pela boca, um assovio tomava conta do lugar, e não era o assovio do vento. Ela então se lembrou do que contavam sobre o lugar, ela se lembrou do assobiador

Os locais contavam a historia de uma família pobre que vivia por entre os becos de Holt, certa noite o homem conheceu alguém que lhe ofereceu riqueza em troca de alguns favores, favores esses que seriam cobrados com o tempo. Sem trabalho ou condições de sustentar sua família o homem aceitou a proposta sem questionar o que teria de fazer no futuro. No dia seguinte ele recebeu uma carta dizendo que herdara a velha mansão no final da St. Mathiew, apesar de ninguém saber ao certo quem era o dono daquela casa tão isolada. O homem conseguiu trabalho e pode dar uma vida digna a sua família e seguiram felizes por alguns anos. 

Cerca de dez anos depois os favores começaram a ser cobrados, um para ser mais especifico, o homem teria que atrair crianças até a entrada da velha mina e as deixar lá como oferenda a quem havia lhe dado um teto e comida, “não pode ser animais no lugar de crianças?” questionou o homem e um balanço negativo de cabeça lhe foi dado, “e como vou atrai-las?” questionou novamente e apenas disseram “assobie”. Naquela mesma noite duas crianças desapareceram, a principio o homem se sentia nauseado e desconfortável com toda aquela situação, mas ao passar dos dias tudo começou parecer mais fácil de se fazer. 

Ele saia na calada da noite e assoviava em baixo das janelas das crianças, um assovio que parecia uma melodia que os encantava e os guiava até a entrada da velha mina onde desapareciam e nunca mais eram vistas. O desespero e o medo tomou conta da pequena cidade de Holt, todos seguiram assim por longos cinco anos, sem saber qual seria a próxima vitima, depois de todo esse tempo todas as famílias de Holt haviam perdido uma criança exceto o homem e então a cidade começou a questionar. Alguém se lembrou de tê-lo visto conversando com alguém estranho certa noite e no dia seguinte ele tinha uma casa e um emprego. Eles começaram a pressioná-lo e ele apenas negava. Com medo, revoltados e cansados os moradores se reuniram e partiram em direção a velha mansão de Sanlin e enquanto eles dormiam atearam fogo na casa matando a todos, ou pelo menos era o que todos achavam. O homem havia saído naquela noite em busca de mais crianças, quando retornou tudo estava queimado e sua família estava morta então naquele instante tomado de ódio e de dor ele jurou que nenhuma família viveria em paz com suas crianças e que todas seriam mortas e então se entregou de vez ao espirito do assobiador. Há quem diga que esses foram os tempos mais sombrios de Holt e que poucas famílias conseguiram ver seus filhos crescerem depois disso. 

O visor de celular em seu bolso apontava vinte duas e trinta, não havia mais vento, não havia mais luz, havia apenas o som do assovio a chamando, ela apenas seguiu em direção a entrada da velha mina, assim como muitos antes dela.

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