Transbordei Em Mim

10/04/2018
As vezes é difícil deixar a imaginação me guiar, mesmo em meio a meras palavras borradas em uma folha amassada de papel me sinto fechada e sem coragem de dizer tudo o que realmente anda preso aqui dentro. A verdade é que já faz um tempo que não sei mais quem eu sou e muito pouco entendo o que caminho que venho trilhando ao decorrer dos longos dias que ando enfrentando. Eu sei parece depressivo. Mas acredite, não é. Deixo-me guiar por entre palavras entaladas na garganta e sufocadas por um sorriso forçado que insisto em colocar nos lábios todos os dias, mesmo sabendo que as pessoas a minha volta já não acreditam mais nele. Nem eu acredito. Me sinto ainda mais sozinha a cada novo dia que surge, sem vontade ou interesse de sair da cama, me pego olhando para um teto manchado e me perguntando quando aquela infeliz rotina terá um fim. Eu sei que cabe a mim decidir. Mas não quero, essa é a verdade. Gostaria que ao menos uma vez na vida tudo se resolve sem que eu tivesse que interferir em algo.

Desabafo. É o que parece esse texto, mas no fundo não passa de mera palavras jogadas entre batidas rápidas de teclas empoeiradas e uma pressa em desafogar o que parece estar prestes a transbordar dentro de mim. Já teve a sensação de derramar para dentro e não para fora? Não queira, se nunca teve, é como cair em um lago negro no meio da noite, sem ninguém para te socorrer, você sente a água gelada entrar por sua boca e narinas e tomar conta de todo o seu corpo, te sufocando por dentro. Estou cheia. Quase derramando para ser sincera. Mas não que isso vá mudar algo ou resolver alguma coisa, a verdade – sou cheia de verdades, já notaram? – é que a gente derrama meio corpo e volta para debaixo da torneira que é a rotina desgastante que nos envolvemos por mero comodismo. Derramar meio corpo. Deu para entender? 

A cada dia que passa me sinto mais presa a mim mesma. Faz tanto tempo que não tenho uma boa conversa que tenho a sensação de estar desaprendendo a falar. Vê se pode? Loucura, eu sei, mas é assim que me sinto. Me sinto sozinha em meio a imensidão de pessoas a minha volta, como uma rádio fora de sintonia e abandonada que ninguém mais ouve. Essa é verdade. Escrevo porque ninguém me ouve. Ou finge não ouvir. Nem eu quero me ouvir às vezes, as mesmas lamúrias e desencontros de sempre. Assim como a total falta de vontade de fazer tudo diferente. Como eu disse estou transbordando, então não espere nada de mim nesse instante e nem nos próximos...sei lá quanto tempo. Não sei quando serei eu de novo, se é que isso é possível, provavelmente quando conseguir derramar meu meio corpo já serei uma nova pessoa como a mesma imensidão negra e sufocante de sempre. Isso é possível? Teremos que descobrir não é mesmo.

No fim as palavras se tornam clichês e repetitivas como uma professora ensinando alfabeto para uma turma. Ficamos só no falar ao longo dos anos e nos acomodamos em não fazer nada. Apenas sonhamos e esperamos que a solução caia do céu como uma forte chuva que surge na calada da noite. Um dia me disseram que eu colocava muito de mim em minhas palavras e que isso era perigoso, como se eu me perdesse a cada novo texto. Por um tempo deixei de ser assim e senti que me perdi de mim no meio dessa transição e olhem só, nunca mais me achei. Não sou mais aquela garota de 2010 que começou a escrever para desafogar o turbilhão em seu peito no velho Tumblr. Me senti retraída por um tempo e ainda me sinto assim, às vezes só consigo aliviar o peso quando jogo palavras sem nexo num velho papel ou até mesmo num rascunho do nosso eterno Word. Só assim tenho a sensação de que me acho e de que sei quem sou naquele momento. Uma garota que no auge dos seus vinte e tantos anos que se encontra numa encruzilhada entre seguir a vida em prol dos outros ou em prol de si mesma. Perdidas entre realidade e sonhos. Afogando-se em si mesma. Se transformando numa grande e negra imensidão sem fim.

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